quinta-feira, 21 de maio de 2015

Andares

     Os dias de João são feitos de pedras, pregos e pinga. De manhã bem cedinho ele entorna duas três doses pra recuperar a destreza e segue sem parar até meio dia. Todo mundo adora o João - menos a Ana que o mandou tomar no meio do cu e foi embora levando tudo, até a tv 29' de tubo - pois ele manja de desentupir vaso, pia, caixa de gordura e vive salvando os vizinhos. A maioria paga com comida, roupa ou com Pitú mesmo. É que João está desempregado há 6 meses, desde que o mestre de obras o flagrou bêbado cagando no décimo nono andar da construção. Só tinha banheiro químico no oitavo e não daria tempo de chegar, então ele escolheu um dos 3 quartos de 20m2 e fez lá mesmo em cima de um papelão, olhando pro reboco. Ainda assim, aquele trabalho foi o maior orgulho do João, não só por causa do dinheiro que dava pra semana e sobrava, mas porque era uma obra enorme, no Água Verde. Ainda hoje, enquanto cava uma valeta nos fundos da casa de alguém, João comenta “Era um prédio grande pra caralho e foi a gente que fez. Era tão alto que lá de cima quase dava pra ver os barraco da gente aqui embaixo a uns trocentos quilômetros de distância”.

Semana

      Você passa o final de semana jogando Battlefield não com o intuito de preencher um vazio mas sim de não dar espaço para uma angústia lazarenta que de quando em quando principalmente domingos à noite embalada pela programação da tv aberta o arrasta pra uma dose a mais de cerveja de dois reais ou de vodca Natasha com suco Maguary ou pra um surto ridículo de choro debaixo do chuveiro quente demais num banho que se arrasta por puro medo de desligar a água e perceber ali no meio daquele vapor onde ao esfregar o espelho você poderá enxergar os contornos manchados de sua solidão que tudo vai começar novamente na segunda-feira e você ri sozinho do verbo “começar”. Durante a semana você parte pra leitura compulsiva de uma quantidade absurda de livros e histórias em quadrinhos no sofá na cama no vaso sanitário nos intervalos do trabalho na hora do almoço no ônibus nas filas sendo esta sempre uma possibilidade de evitar os olhos dos outros os problemas dos outros as conversas insuportáveis dos outros os outros e quem sabe talvez se você parar pra pensar direito escapar de si mesmo evitar lembranças emboloradas e remoer sonhos com prazos de validade vencidos enfim essas coisas todas que fazemos em meio a angústia ou no intervalo entre um comprimido e outro e assim você segue até que chegue um novo final de semana repleto de possibilidades e realizações e conquistas e recomeços no Battlefield.

terça-feira, 19 de maio de 2015

O rio

  
          As garrafas formam um tapete de plástico sobre o rio, numa parte em que o Iguaçu é bem magrinho e a piazada atravessa fácil daqui ali. Brincam de Jesus caminhando sobre as águas no leito colorido, cheio de coliformes e milagres.
      Um deles vem correndo, dá um passo, dois, quase três e some no meio do plástico, reaparecendo só lá do outro lado. Se cagam de rir um dos outros até a barriga doer sem ser só de fome. E aí o silêncio tropeça em suas bocas, pois vem boiando, junto com um sofá e uma sacola de supermercado, um corpo.
      O rosto está meio afundado, mas todos reconhecem a camiseta do Paraná Clube toda puída e o cabelo descolorido. Achavam que ele tinha ido embora, fudido de dívidas, tava cuidando de carro no centro de Curitiba. Ninguém corre, ninguém grita, ninguém acode, ninguém porra nenhuma.
      O rio vai indo, indo.
      Um quero-quero parte o céu ao meio fazendo o escândalo de sempre e aí alguém repara que o alaranjado lá do outro lado da ponte já tá um tanto escuro, tá tarde, melhor vazar.
      Em silêncio, empurram suas bicicletas pelo carreirinho no meio do mato e voltam para suas casas.
      No dia seguinte, só garrafas. Nem o quero-quero apareceu.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Apodrecimentos

1. Um jovem chega de viagem e quase vomita com o cheiro na casa dos avós. Várias moscas rodeiam as frutas pretas e murchas que estão sobre a mesa da sala de jantar. Os móveis com um véu de poeira. O vizinho mais próximo fica há quantos quilômetros? A porta do quarto do casal está apenas encostada, e assim permanecerá para sempre em sua memória.

2. A estante tinha a mesma idade do apartamento seminovo, cheio de parcelas do financiamento pela frente. Porém, um dos livros estava completamente podre. Foi no meio de uma arrumação: o dicionário que pertenceu ao meu pai era para estar na prateleira de português/linguística, mas estava atrás de algumas HQs não muito adultas. Capa preta cheia de bolor e páginas caindo aos pedaços feito uma bíblia profanada. A umidade da casa da infância ainda ali. Nunca o vi consultando o significado de uma palavra ali dentro. Já eu, passei a vida toda tentando decifrar o que ele significava dentro de mim. O dicionário foi pro lixo junto com as revistas antigas.

3. A tristeza vai nos apodrecendo. Às vezes a gente nem repara, pois ela acontece o tempo todo, vira estado natural. Um frio tanto que gela os dedos até não os sentirmos mais.

4. Mas há dias extraordinários em que o crânio de um suicida explode na área comum do condomínio. E aí a gente repara.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Estouro

           Estampido é palavra de escrever, não de falar. Disparo talvez seja melhor. O PM anotou “estampido” na ficha, só que o que a gente ouviu mesmo foi um estouro. Se bem que sei lá se o som importa, ainda mais por escrito.
           Mas não foi um puta estouro, tanto que na hora todo mundo achou que era outra coisa. Eu meio que não achei nada, tava distraído, mas teve gente que achou que era bexiga explodindo, afinal, piazadinha infernal correndo pra lá e pra cá.
           Eu tava no canto direito do salão, perto da Branca de Neve de isopor e guache, do ladinho do prato de risóles que é o meu preferido. Iam cantar o parabéns, o é pique é pique e a porra toda, mas antes as fotos. A criança de um ano lá, toda princesa Disney, meio que ponto turístico e todo mundo revezando as poses ao lado. Até eu fui, sorri, encolhi a barriga, peguei no dedinho, olha que pingo de gente he he.
           Vergonha do caralho dessas interações bestas com crianças dos outros.
           Tava nisso de sentir vergonha e lamentar a falta de cerveja quando rolou o estouro. Não conheço bem a família, só fui porque um conhecido meu (de uns semestres de Letras na UFPR), que é tio da criança, disse pra eu sair um pouco da toca e ver um pouco de gente, o lazarento me logrou dizendo que ia ter Heineken. E aí o estouro e o avô no chão.
           Houve um movimento de onda dos convidados, primeiro se afastando no susto e depois de aproximando na curiosidade de ver a cabeça estraçalhada, a arma e, olha lá, respingou até na Elsa do Frozen.
           Meu colega disse que ele era viúvo, trabalhava, não tinha dívidas e nem câncer, então acabei imaginando um tanto assim de merda que poderiam ter acontecido para levá-lo a fazer uma sujeira daquela. Eu mesmo já tinha bolado mentalmente várias peripécias para um suicídio exemplar, mas com o mínimo senso profilático, nunca algo tão escroto assim, cheio de brigadeiro ensanguentado e criança traumatizada com desenhos animados.
           Dei uma de CSI e fiquei de olho na reação da filha do suicida, mãe da aniversariante. Foi mais para uma não-reação, já que ela só ficou olhando a galera se amontoar ao redor do corpo, ligar pro Samu, pegar um copo d'água com açúcar, abanar as velhas, tapar os olhos das crianças, etc. Fiquei naquela: só avô da criancinha? Sei. Mas aí deixei quieto, pois disseram que apesar de ser atleticano ele era bem gente boa.
           Depois dos blá blá blás dos PMs, aproveitei a distração geral pra fazer um pratinho de salgados (sem respingos) para levar pra casa, coisa que geralmente morro de vergonha de fazer.
           À noite, em casa, no meio de uma maratona de série de TV, me distraí e comecei a remoer tudo o que tinha acontecido naquele dia de merda. Pensei que se o cara tinha planejado aquela pirotecnia toda porque não aguentava mais viver, então não estava nem aí pras consequências e poderia pelo menos ter feito algo bem maluco antes, cagado na mesa do chefe, aceitado fritas grandes no McDonald’s, sei lá. Mas não, disseram que ele apenas passou os últimos dias sozinho no quarto, assistindo Polishop.
           Cara esquisito.

terça-feira, 24 de março de 2015

Notas sobre leitura II


  1. Compro mais livros do que consigo ler. Mas não é pose, eu acho, nem muito menos enfeite pras visitas já que nem sou assim de receber visitas (em todo caso ligue antes, sempre).
  2. Leio, leio muito, mas nunca dou conta de ler tudo. Culpa já não sinto, mas que dá uma tristeza lazarenta, isso dá.
  3. Dá uma alegria também. Aquelas prateleiras inchadas, aquelas pilhas desorganizadas em cima do sofá escondem o controle remoto da TV, o celular, a conta de luz e a minha angústia. Elas são também a minha melhor tentativa de compreender o mundo. Uma bordoada de universos a cada lombada. Um monte de coisas que não sou nem nunca serei.
  4. Os livros preenchem os espaços ao meu redor, então há exemplares por todos os cômodos do apartamento, incluindo o banheiro. Sem eles, meu mundo seria todo feito de vazio e azulejos.
  5. Às vezes me sinto mais vivo ali na solidão do livro do que aqui do lado de fora, sem a capa dura pra proteger das intempéries. E isso acontece mesmo quando não é inverno ou não está chovendo.
  6. Há dias em que esqueço um exemplar em casa e aí a mochila vazia traz aquela facada no estômago de quem bate a mão no bolso de trás do jeans e a carteira não está lá. E se eu tiver que enfrentar uma fila hoje?